segunda-feira, 21 de abril de 2014

Jorge Ben - A Tábua de Esmeraldas (1974)






Taí um disco que é não apenas um dos mais importantes já produzidos no Brasil e no mundo, mas também um dos mais queridos exemplares de minha vasta coleção pessoal. Ele é um dos xodós, meu teacher's pet. Um disco forjado em ouro puro, como a espada de São Jorge, e realizado pelo brilhante musico e poeta, que destrói toda a pretenciosa "inteligência" e "genialidade" dos morféticos e enfadonhos "medalhões" da chamada MPB, com um único golpe/acorde certeiro de seu violão: Jorge Ben. O sujeito simplesmente não é deste mundo e ponto final.





Já podendo ser considerado um veterano em 1974, o músico, que parecia estar no auge de sua aptidão criativa, produz este disco, bem no meio da fase mística comum aos homens-filósofos de 30 anos de idade, que cristalizava o antigo conceito de alquimia e transmutação para ilustrar as transformações que ocorriam em sua sensibilidade músical (que no caso de Ben se transformava de ouro, em ouro). O trabalho alquímico realizado nos metais ("Os alquimistas estão chegando"), como metáfora para sua metamorfose musical, vinha bem a calhar com a visão particular de mundo do músico, um sujeito boa praça que acredita firmemente, como alquimista que é, que o mundo tende para a perfeição.




Para completar o conceito e a coesão da obra, a capa trazia as muito belas ilustrações originais de Nicolas Flamel, o pretenso alquimista medieval que afirmou ter descoberto a pedra filosofal em Pontoise, hoje uma cidade dormitório da periferia de Paris. É justamente a idéia de uma pedra filosofal que transforma não apenas os "metais inferiores" em ouro, mas também prolonga indefinidamente a vida, que permeia a atmosfera musical e poética do disco, tudo magistralmente misturado à glorificação do universo de simpáticos valores suburbanos de Ben: o homem da gravata florida, por exemplo, é ninguém menos que Paracelsius, o célebre ocultista suiço. Metafísicas à parte, o resultado final é um magnífico disco, com canções de sonoridade, melodias, harmonias e arranjos tão belos e imprevisíveis que comovem imediatamente o ouvinte, a menos que este não tenha um coração, ou não se trate de um ser humano. 

Alguém disse uma vez que esse disco foi composto em 2170, e é a mais pura verdade ! Porque ainda não há gênero musical no mundo que possa incluir uma peça tão original como "Errare Humanum est", assim mesmo, em latim. Dois discos depois, Jorge iria eletrificar definitivamente o seu som, no também espetacular "Africa Brasil" e seria o término de sua fase alquimista e o início de toda uma nova história para o homem-saravá. 






Numa destas situações da vida, me encontrei há uns dois anos atrás cara à cara com Jorge Ben, que para minha surpresa era todo ouvidos. Não sou o tipo de pessoa dada à tietagens, de jeito nenhum, mas como se tratava de Jorge Ben, um dos meus heróis pessoais, não resisti, e mesmo mantendo a linha, disparei em determinado momento: "Olha Jorge, seu Tábua de Esmeraldas é a coisa mais linda do mundo, um disco fodaço, mudou minha vida". Ele sorriu satisfeito, olhou pra mim e falou com ar sincero: "Verdade ? Poxa, muito obrigado. Fico muito agradecido mesmo" . Surreal: Jorge Ben todo feliz porque eu gostei do disco dele. Imagina Jorge, obrigado à você meu velho ! 




The Killers - Sam's Town (2006)




Trata-se de um clássico imediato cometido pelos rapazes de Las Vegas. Após o estouro mundial de seu album de estréia, o precedente Hot Fuss, de 2004, a banda estava com a faca e o queijo na mão: o disco havia emplacado um número de hits considerável mundo afora, já em uma época de grave crise da industria. Embora rotulados prematuramente como grupo indie/alternative rock, a banda tinha agora carta branca para mostrar sua verdadeira vocação: um rock de arena consistente e grandioso, messiânico, com refrões dramáticos, para serem cantados em coro por uma multidão em transe religioso. Enfim, um album para comover as massas. E a banda soube fazê-lo com maestria. Sim, porque o disco pratica tudo isso, sem derrapar em um único momento. 




Associando-se amplamente com a imagem de Las Vegas, cidade de onde são originários e capital mundial da decadência - o título Sam's Town remete à um Casino old school da cidade - a banda manipulou muito bem a estética kitsch e white trash (com tamanha maestria que deixou muita gente na dúvida !) para fazer arte. Sim, arte: semi-operística, extravagante, over the top, mas arte. Porque Brandon Flowers é um sujeito astuto, e o resultado foi um enorme bolo de noiva, mas altamente palatável. Havia sim, boa camada de glacê: o glam, o drama e os sintetizadores de registros propositalmente duvidosos. Mas também havia a massa sólida: uma sonoridade forte, ótimos músicos, uma ótima banda de rock. E finalmente o recheio: o disco transborda sentimentos sinceros, do início ao fim. As canções fazem o que toda música boa deve fazer: comover o ouvinte, seja ele o americano gordo que gosta de Bruce Springsteen ou o roqueiro alternativo mau humorado que usa all star. 

Joshua Tree ? No stoopid !! References !!

Talvez para lembrar que tudo aquilo era uma encenação muito bem planejada e executada, a banda escolheu o onipresente Anton Corbijn para forjar sua imagem de brega-chic, o que nos leva à imediata associação de idéias: Anton Corbijn / deserto / U2 / Joshua Tree / Americana / etc. Brandon Flowers estava mesmo possuído por um jovem Bono Vox, que por sua vez sempre soube muito bem misturar o camp, a exuberância, a pretensão e ambição desmesurada com o melancólico, o íntimo e o sentimento verdadeiro. A fina e perigosa ironia dos Killers resultou em um discaço. Azar de quem não entendeu. Uma obra que apenas a distância do tempo lhe dará o mérito devido. 



sábado, 30 de novembro de 2013

Beastie Boys - Check your Head (1992)





Esse incrível disco marca o definitivo e inconstestável amadurecimento musical e pessoal dos Beastie Boys, que após uma década de experimentos musicais diversos, finalmente encontrava a fórmula e a identidade definitiva do seu som. E o melhor, esta fórmula não seguia nenhuma fórmula, mas era sim, um caldeirão de hardcore, jazz-groovy, e algo muito parecido com hip-hop, que foi afinal o que tornaria os caras célebres. A paisagem sonora criada neste dísco é tão variada e possante, que escutá-lo é uma experiência surpreendente e revigorante a cada vez.

Adam (Ad-Rock) na guitarra, Adam (MCA) Yauch no baixo e Michael (Mike D) Diamond na bateria, embracavam eu uma viajem que ia da mais honesta vibração soul ao mais tosco hardcore, passando pelo hip-hop qualquer nota que eles praticam, e navegavam absolutamente contra a maré de grunge e hard rock que impregnava o mercado naquele momento. Mark Ramos-Nishita (Money Mark), o tecladista latino-oriental, e quarto Beastie Boy, pelo menos em seu avatar banda, foi uma dose de classe fundamental para a bem aventurança deste album, que aliado ao toque de midas do produtor gente fina Mario Caldato Jr, resultou em uma obra prima. 




Eu particularmente não gosto muito do "Licensed to Ill", primeiro album "rap" dos caras, e embora reconheça seu valor e influência, acho meio chatinho. O segundo, "Pauls Boutique", já era toda uma nova história, um disco com ótimos momentos, mas o vejo muito mais como o rascunho de uma boa idéia que viria a ser aperfeiçoado no som espetacular apresentado em "Check your Head", que habita um patamar musical que poucos atingem. 

Em Check your Head, a banda conseguiu guardar uma coesa integridade estética mesmo dentro de uma enorme mistura musical. Cada sample, batida, groove e riff de guitarra, transpira grande força de criação e energia. A faixa que abre o disco é a própria síntese da idéia: "Jimmy James", uma reverência musical à duas de suas maiores influências: Jimmy Hendrix e James Brown. Um proto smash que comove e funciona muito bem até hoje. 

A banda retornava em grande estilo, interessados em relembrar às pessoas de que eles não eram os Monkees, e sabiam sim tocar seus instrumentos. Mas sobretudo queriam mostrar ao mundo que não eram mais os meninos sexistas de alguns anos antes, mas sim um saudável tipo de homem feito que não deixa jamais o adolescente gritalhão morrer dentro de si. Taí a receita de uma vida virtuosa. 




terça-feira, 26 de novembro de 2013

Nick Cave - The Good Son (1990)






Após o término dos trabalhos de sua antiga banda, The Birthday Party, Nick Cave prosseguiu com os Bad Seeds, gravando discos que construiam progressivamente uma aura cult, pouco iluminada, em torno do músico, poeta, escritor e roteirista nômade-australiano. Cave passava a ser cultuado cada vez mais como uma espécie de missionário dark, de um tipo imaginário, que prega suas estranhas mensagens baseadas em sexo, morte, desespero e uma eventual redenção, para almas perdidas em um enfumaçado cabaret de cortinas vermelhas esquecido por Deus. Com sua voz de crooner gótico, grave e emocional, a música de Cave está à milhas de distância do padrão radiofônico habitual, e sua obra é concebida como uma experiência pessoal dele direta com o ouvinte. Por isso não é de se estranhar que o cara não possua simplesmente fãs, mas verdadeiros devotos que entendem sua obra como uma  espécie de evangelho soturno.



Nick, durante o seu exílio em São Paulo


Foi um destes devotos que me apresentou à obra de Nick Cave. Remexendo em seus discos achei uma cópia de "The Good Son", e fiquei intrigado com a imagem algo assustadora das crianças vestidas de branco ao redor de um homem que tocava piano. Como era costume em um tempo em que a música ainda possuia um valor metafísico, e precisava ser comprada, levei o disco do meu amigo para casa para estudá-lo com atenção. Quando coloquei no player, e os doces acordes do hino evangélico "Foi na Cruz" ecoaram pelo meu quarto, cantados em português mesmo, achei que tivesse dado um comando errado no aparelho, e na verdade havia sintonizado alguma rádio FM. Levantei para me certificar, e era aquilo mesmo: eu estava realmente ouvindo a primeira faixa de "The good son", que imediatamente me transportava para o invulgar universo musical de Cave. O album acabou sendo a minha porta de entrada para a obra do cara, de quem também virei um fã.



Nick Cave: Um pregador que celebra a eucaristia com cigarros e alcool.


Gravado em São Paulo, cidade em que Cave viveu por três anos, o disco é uma pérola. Cave estava finalmente desintoxicado da heroína, apaixonado por uma brasileira e satisfeito com o anonimato e exílio que experimentava vivendo na Vila Mariana. Por isso The Good Son é um disco ligeiramente menos deseperado do que seus outros trabalhos, mas que carrega igualmente, em arranjos sublimes e produção impecável, a marca dramática e teatral de Cave. O título do album sugere a idéia de redenção presente na parábola bíblica do filho pródigo, como uma metáfora do momento de ex drogado que o músico vivia, semelhante ao rapaz descrito na história contada por Jesus, que volta finalmente para a segurança emocional de seu lar após anos de loucura. O disco segue incrívelmente coeso, emocional no limite do lacrimejante, celebrando a melancolia do tema central, e emulando a devoção de um fiel em uma missa gospel. No evangelho segundo Nick Cave, onde um pacote de cigarro faz as vezes do pão, e um scott duplo, do vinho, The good son é a passagem principal.






domingo, 24 de novembro de 2013

Butthole Surfers - Electriclarryland (1996)





Quando os Butthole Surfers lançaram este album, em meados da década de 90, a maré estava tão boa para o segmento chamado "alternativo" do rock, que até eles, considerados malditos e estranhos demais para merecerem algum tipo de visibilidade fora do gueto indie, emplacaram um lugar ao sol. Eles não viraram nenhum fenômeno de mídia, é verdade, mas para uma banda que não podia ter o próprio nome pronunciado na rádio ou na TV, algum tipo de reconhecimento já era uma grande coisa. O som da banda até então, era o resultado de uma bizarra colagem sonora, de punk, noise, fitas de gravação manipuladas ao acaso, ruídos estranhos e gritos, cujo resultado era algo experimental, absurdo e escatológico demais para ser considerado como comercialmente viável, ou mesmo ser classificado como música. 


Os dementes Gibby Haynes e Paul Leary em mais um dia de trabalho.

O disco anterior da banda, "Independent Worm Saloon", já havia dado sinais de maior coerência, mas bastou que Kurt Cobain declarasse em uma entrevista que admirava o som dos caras, e que os considerava como uma influência, para que todas as atenções se voltassem para os Butthole (na verdade o "efeito Cobain" atingiu várias bandas noventistas, e os Butthole foram apenas mais uma). Produzindo um material menos inaudível, e já na major Capital Records, alcançavam em decorrência disso um público cada vez maior, e tiveram algumas músicas próprias incluídas em trilhas de diversos filmes de Hollywood, inclusive o clássico retardado "Débi e Loide", que contava com a estranhíssima "Hurdy Gurdy  Man", cover do Donovan.



A capa alternativa, para a América bundona, que não mostrava o nome da banda


Em 96 saíram com Electriclarryland, neologismo que homenageava diretamente o clássico de Jimi hendrix Electricladyland (antes a banda já havia feito o mesmo com "Hairway to Steven" - Starway to Heaven). Para o horror de seus antigos fãs, e surpresa geral, tratava-se de um disco agradávelmente pop, no bom sentido, para os padrões dos caras é claro. Diferente do que a capa sugere (um ouvido violado por um lápis fálico), o album é menos drogado e arruaceiro que seus antecessores, e é basicamente coeso, cheio de guitarras, boas canções melódicas (algumas lindas mesmo), peso, refrões ganchudos, e sinais de uma maturidade que finalmente aparecia, porém sem perder a pegada demente peculiar ao grupo. Eu particularmente adoro este disco, e mesmo não sendo um fã devotado dos caras, o tenho próximo do meu coração e já passei grandes momentos com ele. A capa escatológica ganhou uma versão para a américa bundona, que exibia o nome da banda como B****H*** Surfers, bania a figura "ofensiva" original, e podia ser vendido livremente nos magazines "família" da hipócrita América. Um discaço que eu vou escutar agora mesmo.








sábado, 23 de novembro de 2013

The Breeders - "Last Splash" (1993)







Em meados de 1993, os Pixies estavam oficialmente extintos. Após uma sequência de albuns clássicos e turnês memoráveis, o vocalista Black Francis anunciava no início daquele ano pela rádio BBC de Londres o fim do influente quarteto de Boston, que havia sido a própria síntese do que então passou a ser chamado de alternative rock, ou college rock. A banda sucumbia às tensões internas de seus membros, sobretudo aquelas entre Francis e a baixista Kim Deal. O fim dos Pixies foi uma perda enorme, irreparável, muitos diziam. Porém, não houve muito tempo para luto, pois rapidamente, das cinzas dos Pixies, duas forças emergiam de suas personalidades mais fortes: Black Francis, que surgia com o seu projeto solo batizado de Frank Black, e a banda The Breeders, de Kim. Na verdade "as Breeders", como ficaram conhecidos no Brasil, já existiam como projeto paralelo de Kim na época dos Pixies, e já haviam inclusive lançado o excelente "Pod", três anos antes, com produção do icônico Steve Albini.



As gêmeas Kim e Kelly Deal (à frente) harmonizavam guitarras e vocais. Josephine Wiggs (atrás), ex The Perfect Disaster comandava os baixos, e Jim McPherson, unico componente homem, a batera 



Porém, com a ruptura dos Pixies, e com todo o tempo para dedicar à sua banda, Kim estava disposta a realizar um trabalho mais coeso com o seu agora projeto principal. A banda seguiu então para São Francisco, e em alguns meses surgiria este magnífico disquinho. Last Splash soava ligeiramente mais sujo e caótico que um disco dos Pixies, porém igualmente magnífico. A doce voz de sereia de Kim hipnotiza suavemente o ouvinte, enquanto a aspereza dos arranjos, crus e primais, disfarçam a vocação pop, no melhor sentido do termo, do disco. É como sonhar o sonho mais lindo em cima de uma cama de pregos. A ambiguidade do album produz em determinados momentos o otimismo de um lindo dia de sol, seja com fantasias surf ou com melodias de rasgar o coração, e em outros o caos e as trevas dos feedbacks e ruídos sinistros. Nesse aspecto, sua dinâmica era a cara dos anos 90.

A estética romântica e idealizada remetento aos anos 50, na foto do encarte do disco, dissimulava as verdadeiras intenções da banda.


Foi um album que obviamente não foi planejado para o consumo de massa. Lançado pelo seminal selo 4AD, verdadeiro santuário artístico, que também era a casa dos Pixies, acabou alcançando uma certa exposição dentro do seguimento.  A emblemática capa, que traz um coração sangrando, foi pensado sarcásticamente por Kim como uma maneira de ilustrar a idéia de um disco com alma feminina, mas que passava longe do clichê mulherzinha. Com a duração, a sonoridade e o timing perfeitos, Last Splash é, desde que o escutei pela primeira vez, um disco sem o qual não imaginaria passar o resto da minha vida, e a cada reencontro que tenho com ele é pura emoção.